A Impontualidade do Amor
Martha Medeiros
Você está sozinho.
Você e a torcida do Flamengo.
Em frente a tevê, devora dois pacotes de
Doritos enquanto espera o telefone tocar.
Bem que podia ser hoje, bem que podia ser
agora, um amor novinho em folha. T
rimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser?
Amor nenhum faz chamadas por telepatia.
Amor não atende com hora marcada.
Ele pode chegar antes do esperado e encontrar
você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa
batido e você nem aí.
Ou pode chegar tarde demais e encontrar você
desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras.
O amor dá meia-volta, volver.
Por que o amor nunca chega na hora certa?
Agora, por exemplo, que você está de banho
tomado e camisa jeans.
Agora que você está empregado, lavou o carro e
está com grana para um cinema.
Agora que você pintou o apartamento, ganhou um
porta-retrato e começou a gostar de jazz.
Agora que você está com o coração às moscas e
morrendo de frio.
O amor aparece quando menos se espera e de onde
menos se imagina.
Você passa uma festa inteira hipnotizado por
alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra
você.
Ou então fica arrasado porque não foi pra praia
no final de semana.
Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos
outros.
Sentindo-se um ET perdido na cidade grande,
você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na
locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida.
O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca
está onde a gente pensa.
O jeito é direcionar o radar para norte, sul,
leste e oeste.
Seu amor pode estar no corredor de um
supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar
pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro.
Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior
mole.
O amor está em todos os lugares, você que não
procura direito.
A primeira lição está dada: o amor é
onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível.
Jamais espere ouvir "eu te amo" num
jantar à luz de velas, no dia dos namorados.
Ou receber flores logo após a primeira transa.
O amor odeia clichês.
Você vai ouvir "eu te amo" numa
terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão
chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste
de baliza.
Idealizar é sofrer.
Amar é surpreender.

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